Universidade é um substantivo feminino. E, na Universidade Estadual de Maringá (UEM), essa concordância vai além da gramática. Ao longo de mais de cinco décadas, a instituição tem sido construída por trajetórias, vozes e lideranças femininas que ajudaram a consolidar a universidade como referência em ensino, pesquisa e extensão.
Se fosse possível traduzir a UEM em figura humana, ela teria muitas histórias para contar: histórias de dedicação nos bastidores administrativos, de liderança acadêmica, de produção científica e de cuidado com a comunidade. Histórias de mulheres que ajudaram a erguer e transformar a universidade.
Um marco simbólico dessa trajetória foi a eleição da professora Neusa Altoé como primeira mulher a ocupar a reitoria de uma instituição de ensino superior paranaense. Para ela, assumir o cargo representou uma conquista que ultrapassa o âmbito pessoal. “Assumir a reitoria foi um momento de muita honra e responsabilidade. Eu sabia que isso representava não só uma conquista pessoal, mas também um passo importante para a presença das mulheres em espaços de liderança na universidade”, conta.
Uma vida dedicada à universidade
Se algumas mulheres marcaram a história da UEM nos espaços de liderança, outras ajudaram a construir a instituição desde seus primeiros anos. É o caso da administradora Zenilda Soares Beltrami, servidora com mais tempo de dedicação à universidade.
Ela ingressou na instituição em fevereiro de 1975, quando a UEM ainda buscava o reconhecimento federal. Uma de suas primeiras tarefas foi ajudar a organizar a documentação enviada a Brasília para esse processo.
A aprovação veio em 11 de maio de 1976, quando o Ministério da Educação oficializou o reconhecimento da universidade. A comemoração, lembra Zenilda, foi marcante. “Quando chegou a notícia, o pessoal começou a gritar, todo mundo foi para as passarelas, teve fogos de artifício, carreatas… Foi aí que tivemos noção da dimensão desse reconhecimento.”
Hoje, mais de cinco décadas depois de sua chegada à instituição, Zenilda soma 51 anos e 1 mês de dedicação à UEM. Atualmente administradora do Hemocentro do Hospital Universitário Regional de Maringá (HUM), ela afirma que sua relação com a universidade vai além do trabalho.“Essa ligação minha com a universidade é muito forte, como se fosse um cordão umbilical. Eu morei aqui perto, estudei, trabalhei, conheci meu marido aqui, tive minha família e parte dos meus filhos estudou aqui também. É uma vida inteira dentro da UEM.”
Quem também faz parte dessa história de luta, construção e trabalho é a auxiliar operacional do Restaurante Universitário (RU), Diva Cândida Garcia. Homenageada no Café da Tarde para as Mulheres da UEM em 2026 pelos mais de 47 anos de dedicação à instituição, a servidora representa o compromisso cotidiano de quem contribui para o funcionamento da universidade. Seu trabalho no RU ajuda a garantir que estudantes, servidoras e agentes universitários tenham acesso diário a uma alimentação de qualidade, elemento fundamental para a permanência estudantil e o bem-estar da comunidade acadêmica.
Protagonismo feminino em crescimento
Hoje, elas são maioria entre os estudantes da UEM. Dados institucionais mostram que elas representam 56,12% dos matriculados na graduação e também predominam na pós-graduação.
O protagonismo feminino também aparece na produção científica. A UEM ocupa o primeiro lugar do Brasil em produção científica liderada por mulheres, segundo dados do Leiden Ranking, elaborado pelo Centro de Estudos em Ciência e Tecnologia da Universidade de Leiden, na Holanda. Atualmente, 55% dos projetos de pesquisa da instituição têm liderança feminina.
Entre as histórias que simbolizam essa transformação está Lua Lamberti, primeira mulher travesti a conquistar o título de doutora pela UEM. Graduada em Artes Cênicas pela universidade, Lua concluiu o mestrado em 2019 e, em março de 2024, tornou-se doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Educação (PPE). Segundo a pesquisadora, sua trajetória foi marcada por desafios, mas também por redes de apoio dentro da universidade.
“Tive uma trajetória bem tranquila, com alguns percalços comuns, mas tive uma rede de apoio muito legal na UEM, com professoras e colegas que cuidaram muito de mim”, relata.
Para ela, discutir a presença feminina na universidade também exige reconhecer as barreiras históricas que afastaram mulheres dos espaços acadêmicos. “Quando a gente fala de mulheres na ciência, é importante reconhecer que houve um apagamento histórico. O espaço acadêmico foi constituído por e para homens da elite. Acontece que mulheres sempre foram capazes, só nunca fomos permitidas.”
Novas gerações
Essa transformação também se reflete nas novas gerações que chegam à universidade. Entre elas está Filipa Ribeiro Palhano, 16, ingressante do curso de Medicina pelo programa Aprova Paraná e atualmente a estudante mais jovem da UEM.
Para a estudante, a educação tem papel central na autonomia das mulheres. “Eu penso que a educação proporciona o conhecimento, que por sua vez proporciona liberdade de pensamento e financeira, que são fundamentais para que as mulheres tomem suas próprias decisões em uma sociedade ainda patriarcal”, afirma.
A principal inspiração, segundo ela, vem de dentro de casa. Filha de uma professora universitária, Filipa conta que a mãe foi decisiva em sua formação desde os primeiros anos. “Sem dúvida, a mulher que mais me inspirou foi minha mãe. Professora de Matemática na Unioeste Cascavel, ela sempre me incentivou a valorizar os estudos e a visar o ensino superior desde os meus primeiros anos de vida.”
Sobre o futuro, Filipa prefere manter os planos abertos. “Por enquanto, espero ser bem-sucedida na minha vida acadêmica. Além disso ainda não sei, afinal tenho apenas 16 anos”, diz.
Projetos que fortalecem o protagonismo feminino
Além das trajetórias individuais que marcam a história da UEM, a presença feminina também se fortalece por meio de projetos de ensino, pesquisa e extensão voltados à promoção da equidade de gênero.
Um exemplo é o Conectadas, projeto de extensão vinculado ao Departamento de Informática (DIN) que busca incentivar a participação feminina na área de computação. A iniciativa promove a integração entre estudantes e egressas dos cursos da área, além de estimular o interesse de meninas do ensino fundamental e médio por carreiras em tecnologia.
Coordenado pela professora Josiane Melchiori Pinheiro, o projeto também oferece oficinas de pensamento computacional, palestras e cursos de informática básica voltados a mulheres adultas que não tiveram acesso à formação tecnológica ao longo da vida.
Segundo a professora, a iniciativa surgiu a partir de um cenário de queda na presença feminina nos cursos de computação da universidade. “No final da década de 1990 o número de mulheres começou a diminuir bastante. Chegamos a ter turmas, por volta de 2010 e 2012, que não tinham nenhuma caloura”, explica. Diante desse contexto, docentes do departamento passaram a buscar estratégias para reverter o quadro e incentivar novas gerações de estudantes.
Entre as principais ações do projeto está o curso “Brincadeira tem Lógica”, que apresenta conceitos de lógica de programação para meninas do ensino fundamental por meio de atividades lúdicas. A proposta é mostrar desde cedo que a área de tecnologia também pode ser um caminho profissional para mulheres.
Além do trabalho nas escolas, o projeto desenvolve ações de acolhimento para estudantes que ingressam nos cursos de computação da universidade, promovendo rodas de conversa, monitorias, visitas técnicas e atividades de integração. “Muitas meninas relatam que se sentem mais seguras ao saber que existe um projeto de apoio dentro da universidade e uma rede de outras mulheres no curso”, afirma Josiane.
A coordenadora também destaca que a desigualdade de gênero na área ainda é significativa. “Nos cursos de graduação da área de computação, as mulheres representam entre 15% e 18% dos estudantes, e entre os profissionais esse número dificilmente passa de 20%. Para uma sociedade em que mais da metade da população é feminina, ainda é uma presença muito pequena.”
Para ela, ampliar a participação das mulheres na tecnologia é também uma questão de diversidade e inovação. “Precisamos de equipes mais diversas para desenvolver soluções que atendam a sociedade como um todo. Olhares diferentes são fundamentais para os processos de criação e inovação tecnológica.”
Ciência feita por mulheres
Outro destaque é a Rede Previna-se, projeto de pesquisa coordenado pela professora Márcia Edilaine Lopes Consolaro, que reúne cientistas de diferentes regiões do país no desenvolvimento de estratégias para ampliar o rastreamento do câncer do colo do útero.
A iniciativa investiga o uso da autocoleta vaginal para testes de detecção do HPV, estratégia recomendada internacionalmente para ampliar o acesso ao diagnóstico precoce da doença, especialmente entre mulheres que enfrentam barreiras de acesso aos serviços de saúde. O projeto ocorre em diferentes contextos sociais e culturais e busca levar informação, tecnologia e possibilidades de prevenção a populações que historicamente têm menos acesso ao sistema de saúde.
A equipe da Rede Previna-se é composta exclusivamente por mulheres, reunindo pesquisadoras, bolsistas e comunicadoras científicas que atuam em diferentes etapas do estudo, ao todo são 13. Uma delas é a pesquisadora Maria Vitória Felipe de Souza, para ela a educação e a ciência têm papel central na transformação da realidade feminina. “A educação amplia horizontes, fortalece a autonomia e abre caminhos que historicamente foram negados às mulheres, permitindo a conquista de independência intelectual, profissional e financeira, além de ampliar a presença feminina em espaços de decisão na sociedade”, reflete.
A bolsista também destaca que participar de um projeto voltado à prevenção do câncer do colo do útero tem um significado especial dentro de sua trajetória científica. A pesquisa trabalha com a estratégia da autocoleta para o teste de HPV justamente como forma de ampliar o acesso ao rastreamento e promover maior equidade em saúde, especialmente entre mulheres negras de diferentes macrorregiões do Brasil. O objetivo é contribuir para reduzir a morbimortalidade causada pela doença, levando diagnóstico e informação a mulheres que muitas vezes enfrentam mais barreiras no sistema de saúde.
Para a pesquisadora, iniciativas como essa demonstram que a ciência produzida nas universidades pode ultrapassar os limites do laboratório e gerar impacto direto na vida das mulheres. Ela também observa que a presença feminina dentro da universidade tem se tornado cada vez mais relevante na produção científica e na liderança de projetos acadêmicos. Embora ainda existam desigualdades em determinadas áreas e posições de liderança, o crescimento da participação feminina tem fortalecido a diversidade na ciência e ampliado as perspectivas de produção de conhecimento.
Universidade e rede de proteção
A atuação da universidade também se estende ao enfrentamento da violência de gênero. Um exemplo é o Núcleo Maria da Penha (Numape) da UEM. Coordenado pela professora Adriana Biller, o projeto oferece acolhimento, orientação jurídica e acompanhamento psicossocial a mulheres vítimas de violência doméstica e familiar.
“O Numape proporciona acolhimento e encaminhamento jurídico e psicossocial para casos de violência doméstica e familiar contra mulheres. Assim, a universidade pública cumpre seu papel de abrir as portas à realidade social e devolver à comunidade os frutos do investimento na educação superior”, explica a coordenadora.
Segundo ela, o acesso à Justiça também envolve informação e empoderamento. “Podemos pensar o acesso à Justiça tanto como conhecimento de direitos quanto como acesso ao Judiciário. Em ambos os sentidos o Numape tem cumprido seus objetivos.”
Entre pioneirismos, trajetórias de décadas e novas gerações que chegam à universidade, a história da UEM continua sendo escrita por mulheres.
Professoras, pesquisadoras, estudantes e servidoras que ocupam salas de aula, laboratórios, hospitais, projetos de extensão e espaços de decisão ajudam a ampliar os caminhos para quem vem depois.
E, assim como a própria palavra universidade, mostram todos os dias que conhecimento, transformação e futuro também se conjugam no feminino.
(João Luiz Lazaretti/Comunicação UEM)