A Diretoria de Assuntos Acadêmicos da Universidade Estadual de Maringá (DAA/UEM) abriu edital para o preenchimento de 496 vagas remanescentes destinadas a refugiados e migrantes. As ofertas são para 45 cursos distribuídos nos câmpus de Cianorte, Cidade Gaúcha, Goioerê, Ivaiporã, Umuarama e Maringá. As inscrições começam hoje (10) e seguem até amanhã (11).
As vagas remanescentes são aquelas que não foram preenchidas nos processos seletivos regulares, como o vestibular. Na UEM, 10% dessas vagas são reservadas para refugiados e migrantes. O processo seletivo é simplificado e considera, principalmente, a análise de documentos e do histórico escolar.
Segundo o diretor de Assuntos Acadêmicos da UEM, Hugo Alex da Silva, a iniciativa busca ampliar o acesso ao ensino superior para pessoas que enfrentam dificuldades em seus países de origem. “Um dos papéis da universidade é justamente o acolhimento do ser humano em geral, tanto do brasileiro quanto do estrangeiro, principalmente das pessoas em situação de refúgio. É a oportunidade de oferecer ensino superior de qualidade em uma instituição pública e gratuita para que essas pessoas possam se formar e seguir carreira no Brasil”, explica.
Atualmente, 17 estudantes de diferentes países estão matriculados na UEM por meio dessas vagas, vindos do Haiti, Venezuela, Síria, Afeganistão, Angola, Cuba e Peru. Desde 2019, 35 pessoas ingressaram na universidade por esse processo seletivo.
Recomeço pela educação
A venezuelana Rosbelis Alicia Bonillo Ballera é um exemplo de como o ensino superior pode transformar trajetórias marcadas pela migração forçada. Ela chegou ao Brasil em 2019 com a família em busca de segurança. “Cheguei ao Brasil por causa da situação do meu país, que vive um contexto de ditadura e graves problemas sociais e econômicos. Foi muito difícil, mas nosso objetivo era construir uma nova vida”, conta.
Formada em Geologia na Venezuela, Rosbelis não conseguiu revalidar imediatamente o diploma ao chegar ao país. Depois de fazer o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), soube da possibilidade de ingressar na universidade por meio das vagas remanescentes e decidiu tentar o curso de Geografia na UEM.
Mesmo com dificuldades no idioma, ela foi acolhida pela comunidade acadêmica. “Meu primeiro ano foi escrevendo e falando em espanhol e tentando aprender português. Professores e colegas tiveram muita paciência e também valorizaram o conhecimento que eu trazia da minha formação”, lembra.
Rosbelis concluiu o curso em 2025 com láurea acadêmica, tornando-se a primeira refugiada formada pela UEM nessa condição. Ela continua na instituição cursando uma segunda graduação e também o mestrado.
A conquista também inspirou a família. O filho dela, de 21 anos, ingressou no curso de Pedagogia pela mesma modalidade de vagas. “Quando cheguei ao Brasil, estava sem expectativas. Hoje tenho duas carreiras e oportunidades que antes pareciam impossíveis. O Brasil e a UEM me deram uma chance que eu aproveitei ao máximo”, afirma.
O futuro agora parece cada vez mais palpável. Rosbelis pretende se estabelecer definitivamente em Maringá e ajudar outros migrantes e refugiados que enfrentam desafios semelhantes. “Quero continuar estudando e talvez dar aula no futuro, quem sabe na universidade ou para refugiados e imigrantes que chegam com as mesmas dificuldades que eu tive. Acredito que estudar e se preparar pode abrir muitas oportunidades”, planeja.
Da adaptação ao diploma
A egípcia Retag Ali Hassan Zafer Ali Kadah também encontrou na universidade o caminho profissional no novo país. Natural de Alexandria, ela chegou ao Brasil em 2019 com os pais e o irmão. Atraída pela qualidade de vida da cidade, a família escolheu Maringá como lar.
Com pouco tempo no país, Retag ainda conhecia pouco sobre o sistema de ingresso no ensino superior brasileiro, mas decidiu prestar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). A oportunidade de entrar na UEM surgiu por indicação de conhecidos, que falaram sobre as vagas remanescentes da universidade. Ela fez a inscrição e foi aprovada no curso de Letras Português/Inglês. “Aprendi muito no curso. No início era tudo novo: o idioma, a cultura e a universidade. Com o tempo fui me desenvolvendo na língua e entendendo melhor como funciona a construção do português”, relembra.
Em 2024, Retag se formou na licenciatura em Letras com láurea acadêmica. No ano seguinte, concluiu também o bacharelado em Tradução.
Atualmente, trabalha como professora de inglês em uma escola particular de Maringá e pretende seguir carreira na área de tradução.“Estudar em outro país é muito importante. Você percebe que é capaz de conquistar seus objetivos mesmo longe de casa. Não precisa ter medo. Com esforço, tudo dá certo no final”, afirma.
Ela também pretende continuar a formação acadêmica. “Espero trabalhar com tradução, principalmente entre minha língua materna, o inglês e o português. Talvez no futuro eu faça um mestrado na área de línguas”, projeta.
Política de acolhimento
A política de acesso para refugiados e migrantes na UEM foi instituída em 2018 por meio de resolução do Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (CEP). A norma estabeleceu procedimentos específicos para o ingresso desse público e a reserva de parte das vagas remanescentes.
Além do acesso à graduação, a universidade também oferece suporte acadêmico, com aulas de português como língua adicional e acompanhamento por tutores (professores e estudantes da própria instituição).
Em 2024, a UEM ampliou as ações voltadas a essa população ao ser aprovada para integrar a Cátedra Sérgio Vieira de Mello, iniciativa do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur). O programa reúne universidades comprometidas com a promoção de ensino, pesquisa e extensão voltados à população refugiada e busca ampliar o acesso desse público a direitos e serviços.
“Passamos a fazer parte de um circuito internacional de universidades que acolhem essa população. Essa diversidade traz novas experiências e perspectivas para dentro da sala de aula e contribui para ampliar a visão dos nossos estudantes”, afirma o diretor do Escritório de Cooperação Internacional (ECI/UEM), Marcio Cassandre.
Para ele, a presença desses estudantes também enriquece o ambiente universitário e a convivência com pessoas de diferentes realidades promove uma troca cultural importante dentro da universidade. “Eles trazem histórias e experiências muito ricas, que acabam ampliando o olhar dos nossos estudantes. Essa convivência contribui para tornar o ambiente universitário mais diverso e humano”, completa.
A resolução que regulamenta o acesso desse público passa por processo de atualização. Entre as mudanças em análise está a inclusão dos termos apatría ou apatridía, para contemplar também pessoas apátridas, aquelas que não possuem nacionalidade reconhecida por nenhum país.
Outro desafio apontado pela universidade é garantir condições para a permanência desses estudantes. “A gente precisa trabalhar não só o ingresso, mas também a permanência. Muitos acabam deixando o curso por necessidade de trabalho ou outras dificuldades. Por isso, buscamos ampliar políticas de apoio e bolsas para que consigam concluir a graduação”, pondera Hugo Alex da Silva.
Como se candidatar
Podem participar do processo seletivo refugiados, solicitantes de refúgio ou migrantes em situação de vulnerabilidade que tenham concluído o ensino médio.
Entre os documentos exigidos estão CPF, documento de identificação que comprove a situação migratória ( como Registro Nacional Migratório (RNM), protocolo de refúgio ou passaporte com visto humanitário) e comprovante de conclusão do ensino médio.
Os candidatos também devem preencher um questionário sociocultural em língua portuguesa. A classificação considera essas informações e, em caso de maior número de inscritos do que vagas, a média do histórico escolar.
O processo de aproveitamento de vagas remanescentes para o ano letivo de 2026 também contempla candidatos indígenas que estejam na lista de espera do Vestibular Intercultural dos Povos Indígenas no Paraná.
O edital completo estão disponíveis no site da Diretoria de Assuntos Acadêmicos da UEM.
(Adriana Cardoso/Comunicação UEM)