Em cada vaso instalado nas estufas do Núcleo de Pesquisa Aplicada à Agricultura (Nupagri), pesquisadores acompanham cruzamentos genéticos de feijão em busca de plantas mais fortes e produtivas. O objetivo é desenvolver cultivares capazes de enfrentar doenças que ameaçam lavouras inteiras e causam prejuízos aos agricultores, como a antracnose e a mancha angular. O trabalho resultou em duas novas linhagens: a Flor Diniz UEM, do grupo carioca, e a Awauna UEM, de feijão preto.
“Essas duas doenças causam prejuízos na produtividade e na qualidade do produto. Dependendo da severidade da doença e das condições do ambiente, essa produção pode cair a zero”, explica a coordenadora do Programa de Melhoramento de Feijão da UEM, Maria Celeste Gonçalves-Vidigal.
As cultivares também apresentam proteção contra outros problemas que comprometem a produção do feijão comum, entre eles ferrugem, crestamento bacteriano comum, murcha-de-curtobacterium, vírus do mosaico comum, oídio e fogo selvagem.
O estudo integra o Programa de Melhoramento Genético do Feijão Comum da UEM, criado em 1981 e vinculado aos Programas de Pós-Graduação em Agronomia (PGA) e em Genética e Melhoramento (PGM). A pesquisa conta com apoio do NAPI Agrogenômica: Feijão, rede colaborativa financiada pela Fundação Araucária, além do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).
Genética e inovação no campo
O desenvolvimento das novas cultivares combina técnicas tradicionais de cruzamento com ferramentas modernas da genômica. Nas estufas, cada vaso reúne linhagens diferentes que passam por hibridações e retrocruzamentos para incorporar características desejáveis às plantas.
Segundo Maria Celeste, o processo começa com a identificação de genes presentes em variedades de feijão coletadas ao longo de décadas de pesquisa. “Nosso programa primeiro identifica fontes genéticas para depois realizar a hibridação desses genes em cultivares que os agricultores já produzem, mas que precisam resolver esse problema das doenças”, relata.
A base do trabalho está em um banco de germoplasma com aproximadamente 500 acessos de feijão coletados em diferentes regiões do Brasil e do exterior, incluindo materiais vindos da Argentina, Estados Unidos e África.
A pesquisadora Giselly Figueiredo Lacanallo ressalta que essa diversidade genética é fundamental para o avanço das pesquisas. “Temos uma riqueza muito grande de germoplasma e de características genéticas que buscamos incorporar nas cultivares trabalhadas aqui na UEM”, afirma.
Pesquisadora Giselly Figueiredo Lacanallo
No laboratório, os cientistas extraem o DNA das plantas e utilizam marcadores moleculares para identificar rapidamente os genes associados à proteção contra fungos e outras doenças. A técnica reduz o tempo necessário para selecionar novas linhagens e aumenta a precisão do melhoramento genético. “Nós utilizamos marcadores moleculares ligados aos genes de interesse. Isso acelera muito o processo de seleção das cultivares”, esclarece Maria Celeste.
Além das análises moleculares, os pesquisadores realizam inoculações controladas para verificar o comportamento das plantas diante de diferentes raças dos fungos causadores das doenças. O objetivo é reunir produtividade, qualidade e menor necessidade de aplicação de fungicidas. “A gente busca alinhar produtividade com plantas mais fortes, reduzindo a necessidade do uso de agrotóxicos”, acrescenta Giselly.
Alta produtividade e qualidade culinária
As novas cultivares também se destacaram pela produtividade. Durante os ensaios de Valor de Cultivo e Uso (VCU), realizados em diferentes regiões do Paraná, Sul e Centro-Oeste do país, as linhagens alcançaram médias superiores a 4 mil quilos por hectare.
A cultivar Flor Diniz UEM apresentou produtividade média de 4.330 quilos por hectare em 52 ambientes avaliados nos estados do Paraná, Santa Catarina, São Paulo e Goiás. Já a Awauna UEM obteve altas médias de produção em 22 ambientes agrícolas dos estados do Paraná, Santa Catarina e São Paulo.
As duas variedades possuem o gene dominante Co-4², associado à proteção contra a antracnose, uma das doenças mais agressivas do feijão comum. Outro diferencial está na qualidade culinária. As cultivares possuem tempo médio de cozimento de aproximadamente 21 minutos, caldo encorpado e elevado teor de proteínas, 22,3%.
A Flor Diniz UEM, do grupo comercial carioca, também se sobressai pela ampla adaptação edafoclimática, podendo ser cultivada em diferentes estados brasileiros e em variadas épocas de semeadura. Já a Awauna UEM, do grupo preto, apresenta porte ereto, característica que facilita o manejo da lavoura e a colheita mecanizada.
As regiões recomendadas para o plantio incluem Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, São Paulo e Mato Grosso do Sul na safra das águas, além de Maranhão, Tocantins, Bahia, Mato Grosso, Goiás, Distrito Federal, Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro nas safras da seca e inverno.
Para os pesquisadores, o impacto positivo deve alcançar toda a cadeia produtiva.
“A resistência genética é a melhor opção porque envolve menos custo, maior produtividade para o agricultor e mais sustentabilidade ambiental. O produtor reduz gastos com fungicidas e o consumidor recebe um alimento de melhor qualidade”, evidencia Maria Celeste.
Próximos passos
Embora registradas no Ministério da Agricultura desde 2017, as cultivares ainda estão em fase de multiplicação das sementes genéticas. A UEM aguarda a obtenção do Registro Nacional de Sementes e Mudas (Renasem), documento necessário para a comercialização.
Atualmente, a universidade mantém parceria com o engenheiro agrônomo Airton Citolin, de Cascavel, responsável pela ampliação da produção das sementes. “Estamos aumentando a quantidade de sementes para que possamos colocar esse produto nas mãos dos agricultores”, afirma Maria Celeste.
A expectativa é que a liberação definitiva ocorra ainda este ano, permitindo que as novas variedades cheguem aos produtores brasileiros.
Enquanto isso, os pesquisadores seguem trabalhando em novas frentes de melhoramento genético. O grupo já iniciou estudos voltados ao combate do mofo branco e pesquisas com edição gênica utilizando a tecnologia CRISPR. “Enquanto existir doença, vai existir trabalho para o melhorista. É uma coevolução constante entre planta e patógeno”, resume Maria Celeste.
(Adriana Cardoso/Comunicação UEM)