Há oito anos, estudantes do Centro de Ciências Agrárias da Universidade Estadual de Maringá (CCA/UEM) atuam diretamente em comunidades terapêuticas, auxiliando internos na implantação e manutenção de hortas. Atualmente, quatro bolsistas dos cursos de Agronomia e Zootecnia acompanham duas casas de recuperação: a Casa Coração Imaculada, que atende 28 acolhidos, e a Casa Projeto Moriah, com 15 internos.
No local, os estudantes levam mudas e orientam sobre plantio, irrigação, adubação e manejo das hortas. Já os acolhidos assumem a responsabilidade pela continuidade do trabalho, cuidando diariamente dos canteiros e da produção de alimentos como alface, salsinha, cebolinha, berinjela, repolho, beterraba, pimenta e frutas.
O projeto de extensão é coordenado pelo professor José Gilberto Catunda Sales. Segundo ele, a iniciativa nasceu a partir de uma demanda apresentada por uma associação maringaense ao CCA da UEM. “Há oito anos, fomos procurados para que a universidade levasse alguma atividade de horticultura para dentro dessas casas de recuperação. Nós conhecemos os locais e adaptamos as hortas para cada realidade”, conta José Gilberto.
Para o professor, a ação busca amenizar os impactos sociais provocados pela dependência química e oferecer oportunidades de transformação aos acolhidos. “O trabalho da universidade é trazer um pouco da solução e um pouco do alívio na alimentação. A partir do momento em que fazemos as hortas, fornecemos alimentos saudáveis e também uma capacitação para aqueles que estão internados. Depois da permanência nessas casas, eles podem levar esse conhecimento para a vida”, detalha.
Além da produção de alimentos, as atividades proporcionam uma rotina de responsabilidade, disciplina e convivência coletiva.
Impacto social
O professor José Gilberto explica que esse contato direto com a realidade das casas terapêuticas também representa um aprendizado importante para os acadêmicos. “Os estudantes veem, na prática, o impacto da dependência química. É um aprendizado diferenciado, porque aqui é produção real. Se errar, perdeu. Se acertar, ganhou. É a mão na massa”, ressalta.
A estudante do quinto ano de Zootecnia, Analice Lima Lopes, participa do projeto há dois anos. Ela auxilia tanto nas atividades da horta quanto nos cuidados com os animais das casas de recuperação, ajudando a criar rotinas de manejo e responsabilidade entre os internos.
Segundo Analice, a experiência ampliou sua visão sobre o papel social da universidade e da própria profissão. “É um significado que vai muito além do conhecimento aplicado. Existe um aprendizado social muito grande. A gente começa a enxergar pontos sensíveis da sociedade de forma diferente e sai um pouco da bolha do que é apenas o técnico”, relata.
A estudante destaca ainda que o projeto influenciou diretamente seus planos profissionais. “Hoje eu quero continuar ajudando as pessoas com a minha formação. Quero proporcionar uma reabilitação social e uma responsabilidade social muito além da parte técnica”, planeja.
Trabalho terapêutico
Na Casa Coração Imaculada, a horta ocupa cerca de mil metros quadrados e se tornou parte da rotina terapêutica dos acolhidos. Além de contribuir para a alimentação da instituição, o trabalho com a terra ajuda no controle emocional e na saúde mental dos internos.
O educador social Vitor Amorin acompanha diariamente essa transformação. “A horta ajuda na ocupação deles, ensina sobre alimentação saudável e também trabalha a mente. Mexer com a terra ajuda muito emocionalmente.”. Ele acrescenta que muitos acolhidos relatam que o espaço funciona como um refúgio durante o tratamento. “Já ouvi muitos relatos deles dizendo que, quando vêm para a horta, sentem como se descarregassem os pensamentos ruins. Muitos pedem para vir ajudar porque mexer com a terra ajuda a esfriar a cabeça.”.
Além do aspecto terapêutico, o conhecimento adquirido pode abrir caminhos profissionais após o período de internação. “Alguns saem daqui e depois contam que plantaram alguma coisa lembrando do que aprenderam na casa. Isso ajuda no crescimento profissional e pessoal deles”, destaca o educador social.
Entre mudas, adubos e canteiros, o projeto mostra que a recuperação também pode nascer do cuidado diário, do trabalho coletivo e do contato com a terra. Enquanto os acolhidos cultivam alimentos orgânicos para o próprio consumo, estudantes desenvolvem sensibilidade social e experiência prática. Em comum, todos compartilham um mesmo aprendizado: o de que recomeços, assim como as hortas, exigem tempo, dedicação e cuidado constante. Entre pés de alface, salsinha, berinjela e pimenta, a esperança permanece florescendo.
(Adriana Cardoso/Comunicação UEM)